Disponível com hipoteca também para não residentes
Número de quartos: 4
Número de camas: 7
Banhos: 5
Ele tinha as mãos sujas de cal e sal; ela, o cabelo com o aroma do vento marinho. Tinham-se conhecido no mercado de Rosignano, num sábado de primavera. Ela vendia azeitonas e tomates secos e ria com todas as suas rugas jovens. Ele comprou um quilo de cerejas, ofereceu-lhas e disse: «Um dia vou levar-te a ver o mar da minha casa». Ela riu-se, pensou que fosse apenas mais uma forma de a engatar. Mas, dois meses depois, já estavam casados. E encontraram essa casa mesmo aqui, em Rosignano. Três andares. Ele disse: «É demasiado grande para apenas duas pessoas». Ela pousou uma mão no peito dele e respondeu: «Não te preocupes. Vamos enchê-la de crianças e de amigos». E foi o que fizeram. Não vieram crianças, talvez não devessem vir. Mas vieram sobrinhos, primos de segundo grau, velhinhas do bairro, músicos de passagem. A casa começou a respirar. Lá fora, o portão de metal já revelava o seu destino: três símbolos do infinito entrelaçados, e dentro de cada um as letras S e F, as suas iniciais. Como se alguém soubesse, antes deles, que aquela casa seria o palco de uma história sem fim. O rés-do-chão tornou-se o coração pulsante: a cozinha onde ela cozinhava massa com molho de tomate fresco e alho, que o irritava; a sala onde ele tocava guitarra aos domingos de manhã, acordando metade da vizinhança; os dois quartos que só esperavam para serem preenchidos com lençóis amarrotados e malas abertas. E foram preenchidos. Por familiares, amigos e vizinhos que, aos sábados à noite, vinham para a partida de cartas e ficavam até ao amanhecer a beber vinho tinto e a cantar canções desafinadas. Alugaram o primeiro andar, por algum tempo, a casais jovens em busca de sorte. Depois, decidiram ficar com tudo para si: uma segunda cozinha para os jantares intermináveis entre amigos, uma segunda sala de estar com terraço onde se bebia vinho branco a contemplar o pôr-do-sol a esconder-se entre as chaminés e o mar, dois quartos para os hóspedes que nunca faltavam, especialmente no verão. Ele amava aquele terraço com uma paixão quase irracional. Ela adorava o facto de ele o amar. Porque o amor, como ela tinha aprendido, é também isto: observar o outro a olhar para o mar. Das janelas de cada andar viam-se os telhados das casas do vilarejo, um ao lado do outro como velhos amigos, e ao longe, a partir do terraço do último andar, aquele mar que ele lhe tinha prometido no dia das cerejas. O mar estava sempre lá, mesmo quando não se via: sentia-se no ruído, no ar que cheirava a sal e a vegetação mediterrânica. O sótão era o lugar dos segredos. Iam para lá quando queriam ficar a sós, mas não para discutir – para se reencontrarem. Para lá chegar, subiam-se por uma escada em espiral de madeira que rangia a cada degrau, como se quisesse dizer «já estamos quase, já estamos quase, só mais um pouco». Ele guardava ali os livros de química e de poesia, amontoados em pilhas instáveis. Ela guardava lá as ervas aromáticas que cresciam no pequeno terraço exterior: alecrim, salva, hortelã, manjericão. O arrumadouro era o reino da desordem feliz, onde se perdiam objetos e se reencontravam sorrisos. A garagem era a sua pequena oficina, onde ele reparava a bicicleta dela e ela o observava a trabalhar, entregava-lhe as ferramentas erradas de propósito, trocavam beijos roubados entre um parafuso e outro. Envelheceram juntos nesta casa. Ele continuou a regressar da Solvay com as mãos sujas de cal. Ela continuou a preparar-lhe o café no rés-do-chão, todas as manhãs, durante quarenta anos. As risadas encheram cada recanto, cada escada, cada terraço, cada fenda da parede. Então, um dia, partiram. Para sempre? Não, apenas para ficarem perto dos netos, que entretanto tinham crescido e precisavam deles. Mas a casa ficou aqui, ainda acolhedora, ainda cheia daquelas risadas, daqueles jantares, daquelas manhãs de domingo com a guitarra desafinada. E o portão com os três infinitos ainda lá está, com as iniciais deles, para lembrar a quem passa que o amor, às vezes, pode mesmo ser visto. Não é uma casa triste. É uma casa que aprendeu a amar. E espera apenas por um novo casal, uma nova família, uma nova história para contar.